A ideia era “simples”: uma entrevista com Diego Andrés León Blanco, formado em Antropologia na Colômbia, onde pesquisou comunidades das montanhas do sul e mestre em Antropologia em Belém do Pará, “onde conheci as histórias e processos políticos de organizações indígenas da Amazônia e ações educativas desde experiência pedagógicas alternativas”, afirmou

No entanto, o professor e pesquisador que atualmente voltou a residir na Colômbia, foi além e enviou um texto repleto de impressões e observações interessantes sobre a Amazônia, as representações sobre Belém do Pará e como a região é percebida em nosso vizinho latino.

Diante disto, abaixo reproduzimos na íntegra o texto. Vale a pena a leitura! 

Antes de eu viajar ao Brasil, li dois livros que um amigo me indicou. Ele me disse: Se você vai para a Amazônia, não pode deixar de ler Rio, de Wade Davis e El Amazonas Nace en el Cielo, de Petru Popescu. Penso que nesses dois livros se conjuga a “marca” e a “mítica” da Amazônia, pelas que você pergunta.

Há uma marca que se pensamos cronologicamente é depois da mítica, é a marca do capitalismo, da exploração ilimitada e violenta na floresta e sua contraparte, a conservação do meio ambiente. A mítica, mesmo sendo mais antiga do que o capitalismo, se respira hoje nas redes infinitas do mato. As duas são presentes, o capitalismo racional e a floresta como espírito insondável.

Eu estudei em Belém do Pará e a primeira coisa que soube dessa cidade foi no livro Rio. Davis fala sobre a exploração da borracha, da opulência e o progresso que levou a produção da árvore que chora, mas sobre todo seu lado oculto, a violência contra milhares de seres humanos, escravidão e massacres. Tinha esse olhar quando cheguei, pensado nas páginas vermelhas da história da região. Mas também pensei na mística, da minha amiga Audrey Salazar e sua amiga, desaparecidas há mais de três anos na floresta. E no livro de Popescu, sobre os homens gato, das viagens em selvas virgens na procura da origem do rio amazonas que nasce no céu, porque começa nos altos nevados do Peru, no céu mesmo.

Para chegar em Belém desde a Colômbia, passei pela tríplice divisa amazônica entre a Colômbia, o Brasil e o Peru. Em Leticia, a cidade do lado colombiano, não deixei de pensar nem conhecer a mítica das comunidades indígenas, os Tikuna dos três países e suas limpezas com o tabaco, os Uitoto e a coca em pó, o rapé para a força e a vitalidade no trabalho das roças.

Voltei muitas vezes nessa fronteira e conheci outros lugares do lado brasileiro, por exemplo, Atalaia do Norte no Vale de Javarí. Lá fui por um convite de um professor em Tabatinga, Brasil. Dei a uns estudantes dicas para fazer entrevistas. Alguns estavam assustado porque tinham escutado histórias de canibais, já que no Vale tem muitos grupos indígenas isolados. Não conhecemos canibais, mas sim um jovem indígena que não falava português, só sua língua e com muita vontade de aprender a língua do país do qual supõe-se pertence, para defender melhor seus direitos, especialmente contra a deflorestação, essa sim canibal, da produção madeireira sem limites.
Mas antes disso, cheguei em Belém, antiga cidade cimentada pela borracha e pelos indígenas lutando para não desaparecer entre as páginas da economia global, para não ficar silenciosos e passivos somente em Museus famosos como o Emílio Goeldi mas ser atores ativos nas decisões da ordem social.

Belém como muitas cidades latino-americanas, está perdida e sem raízes, procurando fragmentos para se afirmar na história. Vivendo algumas marcas históricas da Amazônia brasileira como preguiçosos e violentos e a maioria se defendendo no mundo da tela, das redes e do mercado para se sentir civilizados longe do mato, e as gotas da floresta se evaporam na cerveja que ajuda a esquecer. Claro! Belém não é só isso, a cerveja não é só para esquecer, o Goeldi e as comunidades indígenas têm trabalhado em parceria. Mas as marcas estão, foram história e são identidade. Mas Belém não se esgota em isso.

Belém é uma cidade que na Colômbia não existe. Não tem nenhuma cidade amazônica colombiana tão grande quanto Belém. As cidades colombianas ainda lutam por aparecer no mapa em meio da floresta que para o governo é só recurso. Belém cresce, o paraense se reconhece. A cidade, os acadêmicos, músicos, lutadores vendendo de todo nas ruas e as pessoas do interior, sabem esquivar as mangas que chovem das árvores, entendem mais do presente que do passado, sabem quando vem chuva e os chinelos passam às mãos. O movimento cultural, a tradição cultural, a festa, não perde seu misticismo, mesmo que a floresta se afasta. Porque Belém não é só seu legado indígena, ele se conjuga com outros mundos, outras tradições, se enriquece, voa como garça, grita como os passarinhos verdes cantando aos prédios. Essas aves fazem lembrar o misticismo, o que escapa ao capital. A sinal de celular cai-se com a nuvem verde de pássaros barulhentos como as batucadas de uma cidade que sabe cantar. 

Diego Andrés León Blanco

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s