Foto: Marina Valente

Nascido em 1971 em Belém do Pará, o professor, pesquisador e músico Henry Burnett é graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), com Mestrado e Doutorado em Filosofia pela UNICAMP, Pós-Doutorado pela USP e é professor dos PPG em Filosofia da UNIFESP e do PPGFIL da UFPA. Atuando nas áreas de Filosofia e Ciências Humanas e Fundamentos e Crítica das Artes, possui mais de 20 anos de trabalho como compositor.

Em entrevista concedida a nós via e-mail, Henry respondeu alguns questionamentos sobre a possível “Marca Amazônia”, baseado em sua vivencia pela Amazônia, outros Estados brasileiros e mesmo outros países, como a Alemanha. Veja a entrevista exclusiva na íntegra:

À distância ou não, como acreditas que é possível analisar e compreender a Amazônia contemporânea?

Sendo Amazônia uma das palavras mais lembradas do mundo, não espanta que o entendimento sobre ela seja diverso; qual olhar sobre esse lugar onde habita uma espécie de memória da humanidade deve ser privilegiado, o de seus habitantes mais antigos, o dos antropólogos, o do Estado etc.? Eu diria que a tarefa do Estado deveria ser a garantia da sobrevivência dos povos indígenas, porque neles reside o conhecimento elementar sobre o futuro do mundo. Sem essa compreensão, a hipótese antropológica sobre o fim da humanidade é irreversível. Compreender a Amazônia é compreender a ligação entre a Gaia e a relação dela com o humano que nela habita, e nesse sentido a Amazônia deveria ser vista como um laboratório para repensar essa dinâmica. Infelizmente eu não acredito que a experiência exploratória e assassina a que foi condenada a Amazônia venha a se inverter, porque a reflexão e a crítica estão sendo gradativamente banidas das relações políticas e sociais, dando lugar a uma justificação econômica que move tudo e que tudo destroi.

Como observas a produção cultural (em especial a música) e sua relação com imagens e imaginários de uma representação natural e mítica, por exemplo?

Eu diria que graças a um lance de gênio de uma mente política tradicional, infelizmente ligada umbilicalmente a um Estado bem intencionado mas oportunista e irresponsável, foi incorporado à essa incompreensão da Amazônia como espaço vital de discussão uma representação musical festiva, idílica e fetichizada, e sobretudo parcial, já que é dependente originalmente da política que lhe deu estrutura e projeção forçada e manipulada. Ao contrário do que se imagina, essa Amazônia esteticamente idealizada colabora para que tudo pareça harmonioso, florido e dançante, ofuscando as criações musicais que expõem a morte, a dor e o sofrimento, que não devem aparecer no mercado cultural, confirmando a análise de Adorno, que dizia que “não há trágico na indústria cultural”. Se tudo isso que se tornou vitorioso na disputa comercial também expressa identidades locais verdadeiras, responde também pela imagética que vai continuar vendo a Amazônia como um lugar edênico e sem tensões. Nesse caso, a cooptação da cultura pela política é um desastre para o avanço da crítica.

Pela tua vivência e passagem por outros países, como observas a compreensão das pessoas sobre a Amazônia?

Não tenho uma compreensão rigorosa dessa compreensão internacional. Mas algo que pode ser constatado sem muito esforço é que eles sabem que a grande ameaça da Amazônia é o Brasil e os brasileiros.

E em outros Estados brasileiros, em especial no Sudeste?

Vale em parte a segunda resposta. A saturação de determinados estilos dominantes no Sudeste abriu um flanco para a diversidade musical e plástica da Amazônia, que arrastou também a culinária amazônica para os grandes centros de consumo; havia um cenário perfeito para uma entrada triunfal e definitiva da novidade expressa pela diversidade vinda do norte. Mas basta ver o incômodo manifesto por habitantes de Belém ao se verem caricaturalmente representados em uma novela global, para perceber o abismo que sempre vai existir entre o “Sul” e o “Norte”, entre o “progresso” e o “atraso”, não nos iludamos sobre isso. O casamento perfeito é a novela estilizada e caricatural e a trilha sonora, o incômodo dos que não se reconhecem nos clichês e nos equívocos da representação é insuficiente para barrar a união perfeita entre o carimbó chamegado e a sereia amazônica. Agora imaginemos a canção Tum-ta-tá, de Walter Freitas, embalando as cenas da novela; seria uma incongruência avassaladora. É importante saber quem são e para que servem os vencedores e os vencidos na disputa midiática. Isso diz muito sobre o que queremos ser e o que não deve ser mostrado.

A fisionomia mais contemporânea de Belém pode interferir em uma nova compreensão a respeito da “marca” Amazônia ou modos de percebê-la?

Interferir? Somente para quem sente na pele a decadência da cidade, para quem usa a cidade à revelia do real e joga com sua riqueza exótica nada muda: vão continuar exaltando a mistura, os cheiros, os sabores, a luz, a riqueza etc. Ou seja, a catástrofe não interfere na “marca”, que pode ser assimilada em uma novela no horário mais nobre da Rede Globo sem deixar nenhum traço de decadência exposto. Não é por acaso que as pessoas não se reconhecem nas personagens, elas também não reconhecem a plástica onde as cenas são ambientadas.

Acreditas que a Amazônia possua alguma “marca”, isto é, algo que a difere de determinadas regiões e que isto possa (ou é) mais abordado pela mídia?

Essa “marca” talvez tenha sido construída com o passar dos anos, mas, como eu disse, foi uma jogada de mestre que a vendeu em sua melhor embalagem recentemente, para isso, tomou as rédeas de sua apresentação, a vestiu, purificou, limpou, reduziu, embalou e despachou. O resultado pode ser constatado facilmente, nunca imaginaríamos onde a propaganda política chegaria, qual sua força verdadeira. Trata-se do lance mais recente de uma ligação entre a política e a cultura que não é nova, apenas foi reeditada com perfeição. Qualquer objeção a ela soa mal-humorada, ressentida e invejosa, porque ninguém quer saber de crítica nesses momentos de efeméride, apenas de incensar as conquistas. Acho isso compreensivo, a música – que é o terreno onde piso desde sempre – é hoje o terreno do jogo; quem sabe jogar e ceder, é convidado a sentar na sala de jantar dos vencedores.

Como você acha que a publicidade encara as imagens e imaginários (e mesmo a “marca”) Amazônia? E como os acadêmicos encaram?

Tenho a sorte – ou o azar? – de estar nas duas frentes, sou um compositor da Amazônia e um acadêmico com trabalhos voltados para a história cultural, incluindo a amazônica, ou seja, preciso lidar com a publicidade do meu trabalho e com a crítica. A publicidade está em tudo, principalmente na política, veja o que ela foi capaz de fazer nas recentes eleições em Belém. Não havendo crítica interna na linguagem da propaganda, ela se refestela com a rica fonte da “marca” Amazônia. Por isso a discussão crítica fica restrita à academia, que não consegue atuar fora dos muros da Universidade. Lamento não oferecer nenhuma reflexão alvissareira, porque quando um compositor como Walter Freitas sai de cena, é porque nós já perdemos.

 

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